terça-feira, 1 de agosto de 2017

Seminário da resistência

O Seminário de Sementes Crioulas foi realizado com sentimentos de esperança, resistência e alegria. Na partilha do conhecimento e do alimento da agroecologia, nas trocas solidárias, nas apresentações culturais, na mística, nos trabalhos em grupos eram mostradas as potencialidades da vida no Semiárido alagoano.
Participaram desse momento agricultoras, agricultores, comunicadores (as) e educadores (as) populares, técnicos, professores e estudantes da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) do Campus Sertão, do Instituto Federal de Alagoas (IFAL) de Piranhas-AL, representantes da Conab, do Instituto de Inovação para o Desenvolvimento Rural Sustentável de Alagoas (Emater) e outros convidados. O seminário ocorreu nos dias 27 e 28 de julho, na Cooperativa dos Pequenos Produtores Agrícolas dos Bancos Comunitários de Sementes (Coppabacs), em Delmiro Golveia-AL.
Os debates tiveram como objetivo avaliar a situação da agricultura familiar no Estado e fortalecer a resistência, diante das medidas governamentais que dificultam a vida no campo.
Nesse contexto o superintendente da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) Eliseu Rego e o assistente de operação, Adriano Jorge Nunes dos Santos falaram sobre a legislação e a diminuição dos recursos em 2017 para compra de sementes no Programa de Aquisição de Alimento (PAA).
Também, o Professor Lucas Gama da Ufal/ Campus Sertão apresentou a pesquisa sobre sementes, do Observatório de Estudos de Luta por Terra e Território.
A pesquisa mostra que existem 89 bancos comunitários de sementes crioulas em funcionamento no Semiárido alagoano, e a Lei nº 6.903, de 03 de janeiro de 2008, que dispõe sobre a criação do Programa Estadual de Bancos Comunitários de Sementes, para fortalecer a agricultura familiar, não entrou em vigor.
Revela também que no período de 2008 a 2016 foram gastos em Alagoas R$ 80 milhões para compra de sementes de outros Estados, no entanto, a agricultura familiar em Alagoas está fragilizada.
Nem sempre as sementes compradas a outros Estados e distribuídas em Alagoas germinam. “As sementes que recebemos do Estado na comunidade não germinaram”, disse o agricultor José Cícero.
Foram dois dias de debates, indignação e construção de propostas para fortalecer a agricultura familiar. Mas, no meio das turbulências que vivem as agricultoras e os agricultores, devido às medidas de governos que dificultam a produção das famílias e diminuem a segurança alimentar e nutricional, foram expostos produtos de qualidade como mel, própolis, variedades de sementes de milho e feijão crioulas, pimenta, artesanatos produzidos com esforço e resistência.
Politica de enfraquecimento
Se por um lado as famílias produzem e desejam permanecer no campo, por outro lado o governo federal vem enfraquecendo a produção. Primeiro com a reforma ministerial ele decretou a extinção do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome e do Ministério de Desenvolvimento Agrário. Ministérios que estavam voltados para o Desenvolvimento Territorial e o fortalecimento da agricultura familiar no combate à fome.
Outra medida drástica é a diminuição de cerca de 80% do recurso para o Programa de Aquisição de Alimento (PAA) em Alagoas. Essa medida vai aumentar a fome no Estado e diminuir a produção da agricultura familiar. Uma vez que o Programa tem o propósito de comprar alimentos produzidos pela agricultura familiar e fazer a doação para as pessoas em situação de insegurança alimentar e nutricional e àquelas atendidas pela rede socioassistencial e pelos equipamentos públicos de alimentação e nutrição.
Além dessas decisões que pesam de forma negativa sobre a agricultura familiar, tem o pacote de medidas de congelamento dos gastos em educação, saúde, programas sociais e o aumento de impostos, entre outras, que afetam principalmente a classe trabalhadora e amplia o aumento da miséria e pobreza no Semiárido.
Elessandra Araújo

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Sentir

Estou com frio!
Mas não rio.
Porque tenho que enfrentar o desafio de me aquecer.
Meu cobertor é muito fino e o frio me faz estremecer.
Será que você pode me ajudar?
Elessandra Araújo

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Estocar a água para convivência no Semiárido

A explosão do verde na caatinga, que transforma a paisagem no Semiárido alagoano. A garantia de ter água estocada nas cisternas, barragens e alimentação para os animais, além do cultivo de alimento para família, tudo isso, representa uma grande riqueza para o casal de agricultores, Mário Cipriano da Silva e Espedita Alves da Rocha, pais de dois filhos, que vivem na comunidade Mulungu em Minador do Negrão-AL.
“Agora o sertão está uma riqueza. Não tem coisa melhor às cisternas e barragens estão sangrando. Se o tempo fosse sempre assim o povo do Nordeste não teria sofrimento. E se não fosse às cisternas, a vida não seria a de hoje, porque a água vinha e a gente não tinha onde armazenar. No sertão, apesar da chuva demorar pra chegar, quando chove, se as famílias tiverem onde guardar a água, elas têm tudo na vida.”
Mário Cipriano está sempre buscando caminhos para manter a água na casa. E se preparou para esse momento de chuva construindo outros reservatórios, por exemplo, pequenos tanques, inclusive um tanque para captar a água que corre no terreiro da casa. “Se a gente tivesse mais reservatórios o verão seria de fartura, porque está chovendo muito. Faz 40 anos que não vejo chover assim em Mulungu”, disse o agricultor.
Com os reservatórios cheios, o agricultor faz planos para manter a produção no período de estiagem. Uma das formas que ele pretende produzir é com o reuso da água da lavagem de pratos e roupas.
“Os últimos sete anos foram os piores, porque não choveu na região para desenvolver a lavoura e juntar água. Mas, consegui plantar e manter no verão com o reuso da água a bananeira, laranjeira, pinheira, feijão, tomate, coentro, batata doce. Quando o verão chegar minha família voltará a fazer o reuso da água, e já estou guardando toda água que posso”, explicou Mário Cipriano.
A produção
A família de Mário Cipriano conquistou as cisternas de primeira água para consumo humano e a segunda água para produção de alimentos através do Programa Um Milhão de Cisternas e do Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA). Fazendo a gestão da água nas cisternas e o reúso para o plantio de hortaliças e frutíferas, a família do agricultor conseguiu sobreviver no período de estiagem prolongada.
Agora, com a chegada da chuva e a garantia dos reservatórios cheios, o agricultor aumentou a produção, e acrescentou ao redor de casa o cultivo da cebolinha, do alface, do alho poró, do feijão. Já na roça ele plantou 60 quilos de feijão e 90 quilos de milho de sementes crioulas. A família mantém também no quintal de casa a criação de pequenos animais.
A chuva que caiu na região dá ao agricultor a segurança hídrica e de manter a produção alimentar, embora o agricultor tenha destacado: “Chegou à água para produzir, mas a gente não conta com nenhum apoio de governos para desenvolver a produção. O agricultor vive com a graça de Deus e com o esforço que faz, mas pela ajuda dos governos não”.
Elessandra Araújo

domingo, 9 de julho de 2017

Execução das atividades na roça comunitária

No dia 21 de junho de 2017, publicamos nesse Blogger a inciativa de vinte famílias em cultivar a roça comunitária, no Sítio Açude em Maravilha-Al. A realização da roça exigiu planejamento e divisão das tarefas.
Na roça foram plantadas sementes crioulas de milho e feijão. As sementes germinaram e o grupo responsável em capinar está desenvolvendo o trabalho. Agora o próximo passo é a colheita, onde todas as famílias farão a atividade em conjunto.
A iniciativa das famílias fortalecerá o banco comunitário de sementes. Assim, podemos dizer que a união faz a força e os resultados são maiores.
Elessandra Araújo

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Ser ou não Ser?

Ver, ouvir e calar! Por que será? Já não posso me indignar, porque a represália vai rolar? Vale a pena deixar tudo como está? De braços cruzados devo continuar? É mais cômodo, e assim ninguém vai me importunar!
Estou comendo, bebendo e vivendo como um robô. A dor do outro é do outro e não me incomoda não Senhor. O que preciso é de trabalho e muita distração, O que se passa a meu redor não comove meu coração.
Vivo na correria do trabalho. É difícil até de parar. Quando as horas passam, O meu corpo só quer descansar. Depois de um bom descanso, quero é farrear, porque um dia minha hora vai chegar.
É assim que muitos vivem: sem olhar e refletir. Acham que o problema é do outro e que não tem como intervir. Mas agora vou perguntar: vale a pena viver assim? No mundo da indiferença, Deixando tudo chegar ao fim?
Viver como um robô e ser programado para ignorar. O que está ao meu redor é assim e deve estar? Desse jeito onde a humanidade vai chegar?
Ser um robô ou ser um ser, que pensa e se compromete com o viver?
Prefiro ser um ser! E como um ser poder sentir, indignar-se e agir! Descruzar os braços e cuidar. Unir forças e trabalhar.
Agora, veja ao seu redor a destruição dos recursos naturais, O aumento da pobreza, da miséria, da violência e muito mais.
Não se perca nesse meio. Algo você pode fazer! Você é um ser importante, e tem algo para oferecer.
Veja o que a indiferença pode causar. O que você ignora hoje, na sua vida poderá respingar.
Elessandra Araújo

quinta-feira, 29 de junho de 2017

A chuva no Semiárido alagoano

O Semiárido que é apresentado por alguns meios de comunicação e livros didáticos como o lugar de terra seca, improdutiva, paisagem espinhosa, sem vida, e lugar difícil de viver, nos revela nesse período chuvoso uma paisagem verde, vento frio e aconchegante, e água para quem tem reservatórios de captação de água de chuva poder armazenar e produzir.
Na comunidade Bananeira em São José da Tapera-AL, o agricultor Edésio Alves Melo, popular Dedé disse: “Na comunidade choveu bastante e tenho orgulho de dizer que cada agricultor fez uma roça. Agora não podemos reclamar, porque o inverno está bom graças a Deus”. Na propriedade do agricultor Edésio Alves, existe uma área de reserva de plantas nativas e o local de produção, com água para beber e produzir, solo fértil, produção agrícola e animal.
Junto com filhos e parentes o agricultor fez seis roças, onde foram plantados três sacos de feijão (180 kg), cinco sacos de milho (250 kg), o cultivo de palma e a horta. “O que a gente colher será dividido para todos. É dessa forma que a gente vive trabalhando com a terra e dividindo o pão. Por isso, gosto de ser agricultor, produzir alimento sem agrotóxico e conservar os recursos naturais, mas o agricultor não é valorizado e o que mais mim entristece é a falta de apoio para comercialização, à falta de assistência técnica e a falta de incentivo agrícola que respeite a agricultura familiar”, disse o agricultor.
Agricultor referência em produção agroecológica, Edésio Alves, conquistou com o Programa Uma Terra e Duas Águas (P1+2) da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA Brasil), uma barragem subterrânea que tem oito metros de profundidade e oitenta metros de cumprimento. De acordo com Edésio a área da barragem chega a uma extensão de oitocentos metros e tem capacidade de acumular cerca de 75 milhões de litros de água, considerada a maior barragem subterrânea do Semiárido Brasileiro.
Com a chuva que vem ocorrendo na região à barragem começou a verter. Isso significa que toda quantidade de água vai passar acima do sangrador sem contenção e segue para uma segunda barragem que ele fez com recurso próprio.
Faz cerca de seis anos que o agricultor não vê a barragem cheia, mesmo assim, a família mantém na propriedade em média de noventa e duas espécies de frutíferas, plantas nativas, ervas medicinais, hortaliças, porque a barragem garante a produção no verão.
A produção da família do agricultor atrai a atenção de agricultoras e agricultores, estudantes, pesquisadores, representantes de movimentos sociais, entidades não governamentais entre outros, que visitam a propriedade para ver as riquezas, belezas e os ensinamentos do agricultor que produz com respeito à agrobiodiversidade.
Chuva e produção
Embora as chuvas não ocorram com a mesma intensidade no Semiárido alagoano, se houvesse política para o fortalecimento da agricultura familiar, e conservação dos recursos naturais, a chuva que chega permitiria que mais agricultores e agricultoras conquistassem autonomia e garantisse a segurança alimentar e nutricional. Porque o Semiárido é um lugar de muitas riquezas, mas também, de grande fragilidade em políticas publicas para convivência na região.
Elessandra Araújo

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Roça comunitária traz esperança para famílias de agricultores

Foi com o propósito de dividir para multiplicar e estocar as sementes crioulas que vinte famílias integrantes do Banco Comunitário de Sementes aproveitaram a chuva na região e fizeram a roça comunitária no Sítio Açude em Maravilha/AL. As agricultoras e agricultores plantaram trinta e cinco quilos de sementes em um hectare de terra. A iniciativa das famílias contou com o apoio da Articulação Semiárido (ASA) por meio de formação e implementação de tecnologia social.
“A ASA orienta a gente a fazer um trabalho comunitário e solidário, essa é uma forma para conseguir viver no Semiárido. Então, nos últimos cinco anos muitos agricultores perderam as sementes no roçado, devido à estiagem. Graças a Deus choveu no final de abril e maio, mas nem todos tinham sementes para plantar, por isso, quem tinha sementes crioulas dividiu para o grupo, e a gente fez a roça comunitária para abastecer o Banco Comunitário”, disse o agricultor Reinaldo Barbosa Lemos.
A atividade comunitária exigiu organização e divisão dos trabalhos “fizemos uma divisão das tarefas, um grupo para arar a terra, outro para o plantio e um terceiro grupo para capinar. Agora a colheita, secagem e armazenamento das sementes serão realizados pelas vinte famílias”, falou Isrraela Rodrigues Alves filha de agricultores do banco de sementes.
Uma das formas de resgatar as sementes passadas de geração para geração e que são adaptadas ao clima e ao solo do Semiárido, conhecidas em Alagoas como sementes crioulas, é através da troca de sementes e experiências entre agricultores e agricultoras, formação e estocagem nos bancos de sementes.
No Sítio Açude as famílias tinham o Banco de Sementes desde 2010, mas a falta de estrutura e de uma sede própria contribuiu para que algumas famílias se afastassem do banco de sementes.
“Já chegamos a armazenar mil quilos de sementes crioulas, mas nos últimos cinco anos nós perdemos uma boa parte das sementes. E isso desanimou muitos agricultores, porque plantava e perdia. Mas, com o Programa de sementes da ASA as coisas melhoraram”, destacou o agricultor Reinaldo Barbosa.
Apoio à casa de sementes
Em 2016 as famílias conquistaram a sede e estrutura para o funcionamento do banco de sementes crioulas, inclusive a garantia da compra de sementes crioulas para as famílias. A conquista veio através do Programa de Manejo da Agrobiodiversidade Sementes do Semiárido (PMAIS) da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA Brasil), executado pela Cooperativa dos Bancos Comunitários de Sementes (Coppabacs).
“As sementes que a gente conseguiu foram plantadas, mas as chuvas foram poucas em 2016 e houve perda. Para alegria da gente teve famílias que conseguiu colher, armazenou e agora dividiu para os demais. Se não fosse o Projeto agora a gente não tinha sementes”, destacou o agricultor.
O agricultor Reinaldo falou com entusiasmo da roça comunitária e disse que aproveitou o período chuvoso para fazer também a roça da família. “Graças a Deus chove na região e isso traz alegria para quem trabalha no campo. Por isso, já plantei de forma consorciada o milho, feijão, abobora e quiabo. Tenho esperança de que vamos conseguir uma boa colheita”, concluiu.
A agricultura familiar precisa de incentivo para produzir e conviver no Semiárido. Precisa de incentivo para conquistar a soberania hídrica, alimentar e nutricional. Precisa de incentivo, assim como o agronegócio que conta com grandes incentivos dos governos federal e estadual.
Elessandra Araújo